Estranho


Me sinto estranho quando me estranho. Me sinto normal quando me sinto estranho. Isso é estranho. Mas já me acostumei a ser estranho, o que faz com que me sentir assim seja normal. Às vezes me lembro que me sinto estranho, então me amo, porque eu não gosto de ser gente normal, podre como a maioria. Gosto de ser podre do meu jeito. Mas isso é mentira, porque eu nem me sinto podre. Me sinto é bem limpinho por dentro. Acho que me acostumei a olhar pras minhas obscuridades, e elas já não me assustam mais. Minhas belezas não são mais belas, minhas podridões não são mais podres. Nada do que eu era continuo sendo, mas mesmo assim não deixei de me ser. Me gosto mais agora do que me gostava há 5 minutos. Ando numa paz escandalosa, isso tem começado a me assustar. Até ontem eu não era eu e não me lembro bem quem eu era. Queria sentir saudades de mim pra poder resgatar um pedaço de quem fui. Mas sou cada vez mais presente. O passado me marca no real do corpo e é por isso que sei que vivi. Os desenhos que o tempo faz no meu rosto, com cada vez mais ânimo, é que dizem da minha idade. Eu seria capaz de dizer que nasci há 5 minutos. Sou cada vez menos feito de passados. Logo eu, que tenho uma memória tão boa. A vida marca cada vez mais o meu corpo e cada vez menos a minha alma. Há um descolamento entre corpo e alma que dói menos a cada dia. Eu gosto da dor, gosto de dores que não doem. Gosto de tudo aquilo que me lembra que estou vivo. Não sou quem pensei que eu fosse um dia. Não sou mais quem eu pensei que sempre seria. Não há em mim nenhum traço que permanece, a não ser os que o tempo desenha no meu corpo. O que há de mais antigo em mim é uma queloide no braço direito. O resto é tudo novo, e o novo me acende a vontade de renovar ainda mais, e a vontade exacerbada de me ultrapassar a todo o momento me deixa assustado, e o susto já não vem mais com o medo, agora o susto aparece inundado de desejo de querer mais, e eu tento parecer com quem eu era, por costume, ou pra não assustar as pessoas, ou por realmente não saber o que fazer com quem sou hoje. Não adianta eu aprender a lidar comigo hoje, amanhã serei outro, e depois outro, e depois outro, e talvez em algum momento algo meu se fixe a mim. É como se a vida estivesse prestes a puxar o meu tapete, e eu estivesse dançando em cima dele me esforçando pra fingir que não percebo. Não quero pisar no chão, o tapete é voador. Não quero mais falar disso. Senão a vida percebe que eu to percebendo ela me olhar, e puxa o tapete só de sacanagem.

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