Mostra “Réquiem para Um Rapaz Triste – 10 Anos”

alice

 

A Secretária de Cultura do Estado de São Paulo, através da Assessoria de Cultura para Gêneros e Etnias (ACGE), e o Centro de Cultura, Memória e Diversidade Sexual apresentam e apóiam o evento “Réquiem para Um Rapaz Triste – 10 Anos”, em comemoração aos dez anos do espetáculo homônimo, criado pelo ator, produtor, jornalista, dramaturgo, Rodolfo Lima, com base nas personagens femininas do também jornalista, dramaturgo e escritor gaucho Caio Fernando Abreu (1948-1996).

A mostra ocorrerá de 20 de janeiro a 24 de fevereiro 2013 na Casa Contemporânea, um espaço multidisciplinar localizado na Vila Mariana, zona Sul de São Paulo, dedicado a exposições, encontros e debates sobre arte, arquitetura, urbanismo, moda, teatro.
O espetáculo “Réquiem para Um Rapaz Triste” conta a história de Alice, uma mulher quarentona que revê sua vida e questiona suas escolhas de forma crua e pontual, numa conversa direta e franca com a plateia.

O trabalho intimista foi concebido para um pequeno público, que assiste à montagem dentro do cômodo de uma casa. A peça não se utiliza de recursos como sonoplastia e iluminação, com o objetivo de transpor cenicamente a realidade da personagem.
Além da apresentação da peça, o evento contará com uma extensa programação que inclui exibição de vídeos, exposição de fotos e outros trabalhos cênicos ligados ao

trabalho de Rodolfo Lima.

Para as comemorações dos 10 anos, Rodolfo Lima concebeu uma continuação para a personagem Alice, no solo batizado – a priori – como “Cerimônia do Adeus”.
A mostra “Réquiem para Um Rapaz Triste – 10 Anos” também traz para a Casa Contemporânea duas peças do repertório do ator: “Bicha Oca” – concebida a partir dos textos homoeróticos do autor pernambucano Marcelino Freire, em parceria com o ator João Pedro Matos – e a inédita “DESamaDOR” – a partir do livro “O amor esquece de começar”, do autor gaúcho Fabrício Carpinejar.

Durante as 5 semanas da mostra, o público poderá conferir uma exposição de fotos, vídeos com fragmentos do espetáculo e depoimentos do ator, além da exibição de fragmentos do processo, trechos do texto, referências, anotações e uma linha do tempo pontuando a trajetória da peça.

Apenas na cidade de São Paulo, o trabalho percorreu 23 espaços diferentes, além de viajar para Santos, São José dos Campos, Itapevi, Mogi das Cruzes, Santana do Parnaíba, Assis, Campinas, São José do Rio Preto e Presidente Prudente. Também marcou presença em Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Fortaleza (CE), Rio de Janeiro e passeou por 4 cidades baianas (Santo Amaro da Purificação, Salvador, Alagoinhas e Porto Seguro). A peça também fez uma turnê itinerante em 12 casas particulares, no projeto batizado de “Alice na sua casa”.

PROGRAMAÇÃO

Bicha Oca – Quartas (as 19h e 21h) e Quintas, 21h (de 23/01 a 21/02)
Cerimônia do Adeus – Sextas e Sábados, 21h (de 25/01 a 22/02)
Réquiem para um rapaz triste – Sábados, 18h (de 26/01 a 23/02)
DESamaDOR, Domingo, às 17h e 19h (de 27/01 a 24/02)

OBSERVAÇÕES
As apresentações ocorridas às quartas-feiras às 19h da peça “Bicha Oca” e aos sábados às 18h de “Réquiem para um rapaz triste”, são GRATUITAS.
A capacidade de público para cada sessão será de 30 pessoas.
O público poderá reservar lugar pelo e-mail teatrodoindividuo@gmail.com  ou pelo telefone (11) 9-7497-4207

SERVIÇO
Réquiem para Um Rapaz Triste – 10 Anos
Produção, Adaptações e interpretação: Rodolfo Lima
Ator Convidado: João Pedro Matos (dividi a cena com Lima na apresentação de “Bicha Oca”
Assessoria de Imprensa: Danilo Dainezi
De 20 de janeiro a 24 de fevereiro 2013
Na Casa Contemporânea, localizada na rua Capitão Macedo, 370, Vila Mariana, zona Sul de São Paulo. Telefone (11) 2337-3015.
Ingressos de R$ 10 a R$ 20, com apresentações populares gratuitas as quartas e aos sábados às 18h
Duração: todas as peças tem duração de aproximadamente 50 minutos
Classificação: Bicha Oca (18 anos), Réquiem para um rapaz triste e Cerimônia do Adeus (16 anos), DESamaDor (livre)

 

 

Sorteio de um livro de Caio Fernando Abreu na sessão de Dama da Noite nesta sexta-feira na Vila do Teatro

 

Na proxima sexta-feira na sessao de Dama da noite temporada popular em Novembro na Vila do Teatro em Santos sortearemos um exemplar do livro ” Triangulo das Aguas” de Caio Fernando de Abreu oferecido gentilmente pela Associação Amigos do Caio Fernando Abreu – AACF

Cia Luna Lunera apresenta ” Aqueles Dois” de Caio Fernando Abreu em Santos

Da rotina de uma “repartição” – metáfora para qualquer ambiente inóspito e burocrático de trabalho, revela-se o desenvolvimento de laços de cumplicidade entre dois de seus novos funcionários, gerando incômodo nos demais. É que “num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Criado a partir do conto homônimo de Caio Fernando Abreu. Com a Cia Luna Lunera. Auditório. Leia Critica

Não recomendado para menores de 16 anos
R$ 8,00 [inteira]
R$ 4,00 [usuário inscrito no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante]
R$ 2,00 [trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no SESC e dependentes]sabado  30/06

 

Cia Luna Lunera apresenta ” Aqueles Dois” de Caio Fernando Abreu em Santos

Da rotina de uma “repartição” – metáfora para qualquer ambiente inóspito e burocrático de trabalho, revela-se o desenvolvimento de laços de cumplicidade entre dois de seus novos funcionários, gerando incômodo nos demais. É que “num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Criado a partir do conto homônimo de Caio Fernando Abreu. Com a Cia Luna Lunera. Auditório. Leia Critica

Não recomendado para menores de 16 anos
R$ 8,00 [inteira]
R$ 4,00 [usuário inscrito no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante]
R$ 2,00 [trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no SESC e dependentes]

sabado  30/06

Nova Pagina do espetaculo Dama da Noite no Facebook

Nao sabemos o que rolou. Denuncia? Sabotagem ou erro grotesco do Facebook.

No ultimo domingo tiraram nossa fan page do espetaculo Dama da Noite do Ar.

Mas nos fizemos outras e ja estamos alcançando nossos fãs e ganhando outros.

Pra curtir, e so clicar em : http://www.facebook.com/damadanoiteteatro

Espetáculo Dama da noite Estréia dia 30 de Abril no Casarão Santa Cruz em Santos

O texto  do escritor brasileiro Caio Fernando Abreu terá uma nova montagem, que estréia  dia 30 de abril, em Santos.

A fala da personagem ecoa e traz consigo a força de milhares de outros corpos, almas, pessoas que se encontram na mesma situação niilista, se sentindo ‘por fora do movimento da vida’, como diz a mesma personagem. É o eco-reflexo  de uma multidão que aprisiona seus sentimento e suas angústias por se encontrarem em um mundo que ainda não aprendeu a respeitá-los. “Dama da Noite”  é um porta voz de tantas outras vozes. É uma boca que, aberta, emana o grito aprisionado  de um sem-número de bocas que encontraram no silêncio sua melhor fantasia, não por escolha, mas por medo, incompreensão ou falta de uma outra – e mais digna – opção. (“Olha bem pra mim – tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida?“)

O local escolhido para a temporada é o “Casarão Santa Cruz”, espaço cultural que funciona em um sobrado na Av. General Câmara 99.  Lá, há atmosfera introspectiva e intimista necessária para o espetáculo, que será aberto a uma platéia de 25 espectadores por sessão.  Além disso, o endereço, bem como outras ruas e avenidas do Centro Histórico, serve de palco para a atuação de personagens reais que transitam nas noites da cidade, as quais se assemelham à nossa ‘dama da noite’.  Estas, inclusive, colaboraram no processo e terão sessões especiais para assistir ao espetáculo.Na quarta-feira, dia 27 de Abril, acontecerá a pré-estréia 20h na  Sala Plínio Marcos da Oficina Cultural Pagu ( Cadeia Velha- Pça dos Andradas) com entrada franca e capacidade para 40 pessoas. Após, haverá um bate papo a respeito do processo de montagem e a Obra do Autor

Ambientado como uma residência, que também pode ser um bar, um nigth club ou o que a imaginação do espectador permitir, as 25 pessoas do público serão conduzidas a uma experiência de troca. Por mais que seja um monólogo, a encenação não é unilateral, sendo o texto colocado de maneira a se tornar um diálogo com a platéia. Assim, se garante que cada apresentação seja única.

Em cena estará o ator e produtor cultural Luiz Fernando Almeida. Luiz Fernando iniciou no teatro em 1990, e dedicou-se à carreira em São Paulo, sempre dividindo seu tempo no paradigma atuar/dividir. É proprietário da Superbacana Produções. Recentemente foi premiado com o Prêmio Plínio Marcos – Melhor Ator Coadjuvante – pelo espetáculo “Quando os Olhos se Fecham” (2009) e no XVIII FESTAC (Festival de Teatro de Cubatão) – Melhor Ator Coadjuvante – pelo espetáculo “O que terá Acontecido a Rosemary?” (2010). Neste projeto, anseia pela montagem de um monólogo, o que é para ele um delicioso e instigante desafio.

A direção é de André Leahun, artista respeitado na cidade, que vem ao longo de sua carreira insistindo na produção local. Recentemente, obteve grande sucesso de público e de crítica com a direção do espetáculo “O que terá acontecido a Rosemary?”, atualmente em cartaz.

Teatro ao Meio dia

Com o objetivo de despertar e incentivar os trabalhadores, transeuntes e moradores da área central histórica de Santos, o interesse de assistir e incluir a cultura, através do espetáculo teatral, como cardápio alternativo no horário de almoço, durante a semana a Superbacana Produções em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e Secretaria de Turismo lança o projeto Teatro ao Meio Dia que terá sessões gratuitas do espetáculo Dama da Noite sempre as quintas e sextas-feiras ( a partir do dia 05 de maio).

Tendo em vista toda a movimentação que o centro da cidade promove nos dias atuais através dos incentivos de revitalização, dar novo uso às edificações antigas, promovendo à cultura aos trabalhadores daquela região e recriando um pólo de diversões no Centro, num horário alternativo capaz de revigorar a atividade econômica, social e cultural da cidade.

Empresas, escolas e pessoas interessadas em reservar para grupos podem entrar em contato pelo email: superbacanaproducoeseventos@gmail.com.  “A temporada acontece ate 30 de Junho mas a idéia e dar continuidade ao projeto abrindo para temporadas de outros espetáculos”- conta Luiz Fernando Almeida, idealizador do projeto.

Serviço:

O que?

Dama da Noite de Caio Fernando Abreu

Com Luiz Fernando Almeida

Direção: Andre Leahun

Quando?

Estréia  Sábado 30 de Abril as 21h

Quintas e Sextas-feiras  ao meio dia  ENTRADA FRANCA

Sábados as 21h/Domingos as 18h

Quanto? 

$10,00 ( meia entrada) $ 20,00 ( inteira)

Ingressos na Internet: http://www.santaeconomia.com.br/bonus.php?qualbonus=54

Ingressos Antecipados na Realejo Livros (Rua Marechal Deodoro, 2 – Gonzaga)

Onde?

Casarão Santa Cruz

Rua General Câmara 99 – Centro- Santos

Capacidade: 25 pessoas

Informações/Reservas: 13 7808 8696

Ficha Técnica:

Ator: Luiz Fernando Almeida

Direção: Andre Leahun

Figurino: Luis Careca

Cenografia: Daniela Bevervanso

Multimídia: Spetto 

Maquiagem: Fernando Pompeu

Assistente de Maquiagem: Kleber Kleys

Iluminação: Andre Leahun

Customização: Johnny

Trilha Sonora: Andre Leahun e Luiz Fernando Almeida

Fotos e Vídeos: Gabriela Mangieri

Cenotécnica: Cenotech

Produção: Priscila Calazans

Produção Executiva: Paula D Albuquerque

Direção de Produção: Luiz Fernando Almeida

Panfletagem: Robson Moura e  Letícia Padilha

Realização: Superbacana Produções

Blog: www.damadanoiteteatro.blogspot.com

Twitter: @damadanoite1

Facebook: http://www.facebook.com/pages/Dama-da-Noite/186630641357382

Teaser: http://youtu.be/cbf9Fyoj1Jw

Apoio Institucional: Prefeitura Municipal de Santos, Secretaria de Cultura, Secretaria de Turismo, Secretaria de Saúde, Governo do Estado de São Paulo, Oficina Cultural Pagu, Poiesis.

Apoio Cultural: 269 ( Sex& Bath Club), Farinha Nita, Revista Junior, Mix Brasil, Câmara do Comercio GLS, Casarão Brasil Associação GLS,  Eskenta. Net

Apoio: Kokimbos, A Mineira Pão de Queijo,  Swasthya Yoga, Santos e Região Convention & Visitors Bureau,  Saudade FM, RH em Hospitalidade,Denuncia Jeans, Miúcha Calçados, A Confraria Produções Artísticas, Afroluz,  Oficina do Imaginário, Instituto Cae, Bellini Bolos, Sansex, Curta Santos, Lions Night Club, Realejo Livros, Amigos da Cultura, Santa Economia, Juicy Santos,  Cia Coisas de Teatro.

O que já “falaram” do espetáculo?

Jornal A Tribuna : http://migre.me/4dAVB

A Tribuna Digital : http://migre.me/4kyA8

Clara Monforte: http://migre.me/4dAY1

Boqueirão News: http://migre.me/4kyx3

Blog Superequatorial: http://migre.me/4dAWE

Blog Moda na Baixada: http://migre.me/4dAXd

O Palco Santista: http://migre.me/4dAZ0

Teaser da Peça Dama da Noite

Transformações (Uma fábula) – Caio Fernando Abreu

Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim.
Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos – acordar, comer, caminhar, dormir, dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos, olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamaria – tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las – vaga e precisamente de: A Grande Falta.
Era translúcida e gelada. Tivesse olhos, seriam certamente verdes, com remotas pupilas. À beira da praia certa vez encontrara um caco de garrafa tão burilado pelas ondas, areias e ventos que cintilava ao sol, pequena jóia vadia. Apertou-o entre os dedos, sentindo um frio anestésico que o impedia de perceber as gotas de sangue brotando mornas da palma da mão. Era assim A Grande Falta. Pudessem vê-lo, pudesse ver-se, veriam também o sangue, ele e os outros. Acontece que tornava-se invisível nesses dias. Olhando-se ao espelho, sabia de imediato que estava dentro Dela. No vidro, além dele mesmo, localizava apenas um claro reflexo esverdeado.
Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela. Intrincados, a ponto de um tornar-se ao mesmo tempo fundo e superfície do outro. Amenizava-se às vezes no decorrer do dia, nuvens que se dissipam, turvo de água clareando até o cair da noite surpreendê-lo nítido, passado a limpo, passado a ferro. Então sorria, dava telefonemas, cantava ou ia ao cinema. Mas em outras vezes adensava-se feito céu cada vez mais escuro, turvo agitado subindo do fundo, vidro bafejado. Sem dormir, fosforescia entre os lençóis ouvindo os ruídos da madrugada chegarem como abafados por uma grossa camada de algodão. Dissipava-se ou concentrava-se na manhã seguinte e, concentrando-se, não era uma manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação sem solavancos.
Seu maior medo era o destemor que sentia. Íntegro, sem mágoas nem carências ou expectativas. Inteiro, sem memórias nem fantasias. Mesmo o não-medo sequer sentia, pois não-dar-certo era o natural das coisas serem, imodificáveis, irredutíveis a qualquer tipo de esforço. Fosse íntimo das águas ou dos ares, teria quem sabe parâmetros para compreender esse quieto deslizar de peixe, ave. Criatura da terra, seu temor era quem sabe perder o apoio dos pés. E criatura do fogo, A Grande Falta crepitava em chamas dentro dele.
Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e uma voz particular e uns gestos habituais e alguns trejeitos pessoais que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o externo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo.
Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. Debaixo da terra, fogo-fátuo soterrado tão profundamente que a pele nem reluzia.
Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena. Isso acontecia apenas quando dentro Dela, pois ao desembarcar, em vez de sorrir ou fazer coisas, freqüentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior. A dor desconsolada e inconsolável, em soluços que o sacudiam cada vez mais fortemente, a cada um deles partindo-se a casca, quebrando-se a moldura, rachando-se o vidro, apagando-se o fogo.
Como uma outra espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos, por vezes – quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas (mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava de pisar, aconteceriam realmente) não era suficiente – povoado com répteis frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e verdes olhos de pupilas verticais.
Não saberia dizer com certeza como nem quando aconteceu. Mas um dia – um certo dia, um dia qualquer, um dia banal – deu-se conta que. Não, realmente não saberia dizer ao menos do que dera-se conta. Mas foi assim: olhando-se ao espelho, pela manhã, percebeu o claro reflexo esverdeado. Está de volta, pensou. E no mesmo instante, tão imediatamente seguinte que confundiu-se com o anterior, cantava, novamente ele mesmo. No segundo verso, pequena contração, tinha novamente entre os dedos o caco de vidro luminoso. Mas antes que a mão sangrasse, havia preparado um drinque, embora fosse de manhã, e bebia lento, todo intenso. Antes de engolir o líquido, seu corpo ganhou vértices súbitos, emoldurando o desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos abertas, olhos fixos na distância.
Foi um dia movimentado, aquele. Sua casca partia-se e refazia-se, entardecer sombrio e meio-dia cegante intercalados. Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se, ausentou-se. No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Ausência, ou A Grande Partida, ou A Grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la.
Não conseguiu. Desimportou-se com aquilo. Tomado a intervalos pelo anônimo, atravessou a tarde, varou a noite, entrou madrugada adentro para encontrar a manhã seguinte, e outra tarde, e outra noite ainda, e nova madrugada, e assim por diante. Durante anos. Até as têmporas ficarem grisalhas, até afundarem os sulcos em torno dos lábios. Houvesse uma pausa, teria pedido ajuda, embora não soubesse ao certo a quem nem como. Não houve. Mas porque as coisas são mesmo assim, talvez por certa magia, predestinações, sinais ou simplesmente acaso, quem saberá, ou ainda por ser natural que assim fosse, e menos que natural, inevitável, fatalidade, trágicos encantos – enfim, houve um dia, marco, em que o tocaram de leve no ombro.
Ele olhou para o lado. Ao lado havia Outra Pessoa. A Outra Pessoa olhava-o com cuidadosos olhos castanhos. Os cuidadosos olhos castanhos eram mornos, levemente preocupados, um pouco expectantes. As transformações tinham se tornado tão aceleradas que, no primeiro momento, não soube dizer se a Outra Pessoa via a ele ou a Ela, se se dirigia à moldura, à casca, ao cristal ou ao desenho, ao corpo original, às gotas de sangue. Isso num primeiro momento. Num segundo, teve certeza absoluta que se tinha desinvisibilizado. A Outra Pessoa olhava para uma coisa que não era uma coisa, era ele mesmo. Ele mesmo olhava para uma coisa que não era uma coisa, era Outra Pessoa. O coração dele batia e batia, cheio de sangue. Pousada sobre seu ombro, a mão da Outra Pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves.
Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.